O Ano de 1877


“As duas freguesias que hoje constituem a vila de Vizela, demoravam próximas uma da outra, apenas separadas pelas bucólicas margens do Vizela.

Aldeias rurais modestas, de gentes simples e trato lhano, rodeadas por outeiros ensamilhetados de uma Flora viçosa, policroma, suave em tonalidades ou matizes vários tão amenos à vista, de uma beleza gritante, rodeando casais dispersos em arrumo de presépio a salpicar o panorama. «Por toda a parte a cor verde em tons dispares; o verde dos linhais , dos trigais, dos milheirais a contrastar com o verde amarelo das vinhas, o verde escuro dos pinhais, o verde crisófilo das carvalheiras meãs. O verde – riso da terra – um riso que não é triste, um riso menos alegre que não chega nunca a ser melancólico sequer».

O meio era agrícola, rústico, pacífico, idílico e pastoril. O rio com uma graça e amenidade pueril a colear e acariciar todo este precioso cenário em amorosos murmúrios como se beijasse sofregamente as veias e as leiras marginais.

S. João Baptista das Capelas e S. Miguel Arcanjo das Caldas pouco mais tinha de 275 fogos e milhar e meio de habitantes.

Ora a partir de 1744 as águas termais de Vizela reaparecem e a sua eficácia terapêutica já conhecida de Celtas, Romanos, Visigodos e Suevos, expande-se velozmente pelo Norte do País. A água hidrosulfurosa-sódica começa primeiro a ser exportada em pipas para vários pontos do país, muito em especial Guimarães, Braga, Porto, etc.Vizela enche-se de doentes à procura de alívio para os seus males. As habitações eram poucas, não chegavam para albergar uma mínima parcela de enfermos. Mas a fama voa e a fama das Águas Termais de Vizela ultrapassa as fronteiras do desconhecido e avassala quási Portugal inteiro. S. João ultrapassa as margens do Vizela e o seu casario, agora de proporções mais avantajadas e modernas, enlaça-se com as ruas e casas da de S. Miguel, com intuito bem claro do lucro, do desenvolvimento económico dos seus habitantes.

A igreja românica de S. João, junto ao peço de Gominhães, ruiu; uma outra nova se construiu no local onde hoje se encontra a existente.

Vizela começa a regorgitar de banhistas e a tornar-se num meio cosmopolita avantajado.

Em 1878 inaugura-se a estação Telégrafo Postal de que foi 1º Chefe Armindo Pereira da Costa.

Em 1805 já temos Caminho de Ferro, Farmácias, Médicos, etc. Os prédios foram construídos no mais curto espaço de tempo para albergar os aquistas.

Sete hóteis e 4 cafés abriram as suas portase todos os habitantes alugam os seus prédios pois não se pode perder o novo El Dorado tão promissor.

Durante, pois, o tempo veraneal em que se faz o uso das águas, Vizela regorgita de hóspedes doentes que procuram o alívio para os seus padecimentos e durante 4 meses no ano é uma pequena cidade animadapela euforia de quem, a passar férias, vai tratando da sua depauperada saúde deixando cá a poupança magra ou choruda de um ano de esforços. Alguns vieram de muletas e cá as deixaram como recuerdo

Do pacifismo que até então se usufruía entrou-se num período de grande movimento.

Abundam os incêndios, os sinistros, as águas idílicas do rio e ribeiros que bacia hidrográfica do Vizela, os desastres e afogamentos sucedem-se.  Ao toque lúgubre dos sinos nos campanários o povo acorre em tropel e fica estático perante as atrocidades da morte, par o que são impotentes.

É um espectáculo confrangedor e aterrorizante.

Os pais e as mães murmuram litanias de dor ou hossanas de alegria e gratidão consoante vêem os seus filhos queridos mortos ou salvos das garras da Parca hedionda.

A populaça desvairada acorre de todos os recantos da aldeia armados das suas alfaias agrícolas para num auxílio rudimentar ajudarem a salvar os seus semelhantes, enquanto as lúgubres chamas do braseiro crepitam impávidas destruindo os seus casais.

Era preciso um Corpo de Salvação Pública, eram precisos bombeiros.

A Caridade é irmã gémea do Amore  ambas filhas de Deus. Por isso os Bombeiros são anjos de Paz e Amor, logo, filhos de Deus.

Aquele puro sentimento de bem fazer que sempre animou o saudoso e querido Armindo Pereira da Costa, a dor que lhe causava a infelicidade dos outros, levou-o a fundar a Humanitária Associação dos Bombeiros Voluntários de Vizela, cujo lema é, desde esse tempo, – Auxilium in Periculum.

 Então em Novembro de 1876, reúne em casa alguns homens bons de Vizela – de saudosa memória – e num apelo sincero pede-lhes todo o apoio moral e material para que a corporação, o seu sonho doirado, se concretize.

 Constituiu-se a primeira comissão, que ficou assim ordenada:

                Armindo Pereira da Costa

                António Pedro Barros Lima

                António José Dias Pereira

                Dr. Abílio Torres

                Joaquim Ribeiro da Costa

                António de Azevedo Varela

                Luís Antunes Pereira

                Joaquim de Freitas Ribeiro Faria

                Joaquim Pinto de Sousa e Castro

                João Ribeiro de Freitas Guimarães e

                Clemente Marcelino de Oliveira (ex-Pº)

Nomeia-se a 1ª Direcção a que presidiu o saudoso Dr. Abílio Torres; o 1º Comandante que foi Armindo Pereira da Costa e o 2º Comandante que foi Joaquim António da Silva, tio do 1º.

Fazem-se os primeiros peditórios, as primeiras festas e Kermeses cujos produtos revertem a favor da corporação. A Rainha D. Maria Pia e outros membros da Casa Real enviam as primeiras ofertas. O bom povo de Vizela contribui com o seu modesto óbulo e…

Armindo Pereira da Costa

ARMINDO PEREIRA DA COSTA

Fundador e 1º Comandante

Ao raiar de uma manhã formosa em que o sol pão laivos de oiro e rosa na Natureza e a 8 de Maio de 1877 o Corpo Activo da Humanitária Associação dos Bombeiros Voluntários de Vizela percorre as ruas da Vila, debaixo de formatura, assiste a uma missa na paroquial de S. Miguel, já com 30 Bombeiros devidamente fardados e equipados”.

Extraído de resenha de elementos etnológicos, escrita por Francisco Costa,  sob o pseudónimo de Júlio Dantas. Texto publicado no decorrer do primeiro Centenário da Associação.